Artigo: Cidadãos ou gado?

Por Tiago Franz* Na coluna de ontem, aqui no Perspectiva, o cientista político Matheus Passos comentou a importância da participação popula...

Por Tiago Franz*

Na coluna de ontem, aqui no Perspectiva, o cientista político Matheus Passos comentou a importância da participação popular na política. Infelizmente, ele está certo em sua constatação: no Brasil, a participação popular é quase que limitada ao voto e à espera pelas próximas eleições. Por um viés diferente, amplio a discussão iniciada por meu colega colunista.

A filiação partidária é uma possibilidade aberta à livre escolha dos cidadãos brasileiros. No entanto, não se escolhe um partido como se escolhe uma camisa. Testemunhei recentemente dois maus exemplos de envolvimento partidário. Muito aquém de ser participação política, o que vi está mais para “arrebanhamento de gente”. Nos dois casos, certo partido político, em dois municípios catarinenses, usou métodos no mínimo curiosos para filiar jovens. É tão cômico quanto lamentável.

Vamos ao primeiro caso. Perguntei a um colega de universidade, membro recém-eleito do Centro Acadêmico, se tinha filiação partidária. Respondeu-me que sim, e acrescentou que estava encaminhando sua desfiliação. Filiou-se para ajudar um amigo em uma gincana. Isso mesmo. Uma gincana!!! Seu amigo integrava a juventude do tal partido, que propôs a tal gincana. O objetivo da “brincadeira” era filiar jovens ao partido. Quem trouxesse mais cabeças para o rebanho vencia. Pergunto-me qual seria o prêmio reservado ao vencedor. Passado algum tempo, o jovem líder estudantil não encontrou identificação alguma e resolveu deixar o partido.

O segundo caso foi muito pior. Na mesma semana, encontrei uma ex-colega, que começou o ano trabalhando em uma Prefeitura, assim como o Prefeito, eleito no ano passado. Satisfeita com o emprego, disse ter se filiado ao partido do Prefeito. Contou ainda que seu irmão também entrou para o partido. O motivo? Pasmem. Participar de um campeonato de futebol. Apenas membros do partido poderiam jogar. O prêmio era bastante sedutor. Toda contente, minha ex-colega disse que o irmão ganhou uma “grana legal”. Seu time venceu.

Percebam que, nos dois casos, o motivo da filiação partidária nada tinha a ver com princípios e valores políticos, engajamento ou ideologia. Apenas conveniências pessoais - relações de amizade, emprego e, quem diria, futebol. E dizer que muitos dos nossos representantes surgiram desse vício. E dizer que muitos jovens se deixam levar por tamanha miséria.
Ingressar em um partido político é direito do cidadão. É também condição para ser candidato a um cargo no legislativo ou no executivo. Mas não é a única forma de participar da política. Participação popular só é possível quando as pessoas exercem plenamente a cidadania.

Cidadão é quem, antes de tudo, tem consciência de que a garantia de seus direitos depende da sua vigilância, do seu senso crítico, da sua seletividade e do não-conformismo. Apenas votar não é o bastante. Quem não é cidadão por inteiro, ou é gado, massa de manobra, ou é cúmplice da sem-vergonhice, do clientelismo.

*Tiago Franz é colunista do Perspectiva Política aos domingos e editor do blog NeoIluminismo

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  1. Infelizmente a maioria das pessoas só se envolvem com a política na época das eleições, depois muitos deles se sequecem até em quem votoram, temos que ajudar a fazer as pessoas perceberem a importância da participação diária, dos debates da troca de idéias, respeitando sempre o posicionamento de cada um, pois ninguem é o dono da verdade, e a democracia é feita quando a maioria converge para um posicionamento, na essência todos os partidos são iguais todos buscam os mesmos objetivos, o que existe no Brasil é que os caciques dos partidos querem mandar no mandato de seus parlamentares, esquecendo que os cidadãos votam é no candidato e nas suas propostas políticas, vamos abrir os canais da comunicação para trazer todos os segmentos da população para o debate das prioridades da nossa cidade, do estado e do Brasil.

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  2. Consciência política é o caminho.

    Politizar a população, ou seja, mostrar aos cidadãos não só de Itaguaí mas de todo o Brasil que política não deve ser só para políticos, política deve ter a participação de todos nós.

    Se todos acima de 16 anos tem direito ao voto significa que todos estes devem estar atentos ao que nossos eleitos estão fazendo para honrar seu mandato.

    É um trabalho árduo e dificilmente teremos 100% de êxito. Mas se metade da população se interessar de forma politizada e sem interesses obscuros, já teremos um lugar melhor.

    É melhor ser um sonhador. O homem precisa de sonhos para viver. Sem sonhos, que graça tem a vida?

    Politizar...

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  3. "O maior castigo para quem não gosta de política é ser governado pelos que gostam." (Arnold Toynbee)

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  4. Para o Professor Fabiano (caso ainda não conheça):


    "Um velho passeava na praia e viu um menino que pegava estrelas-do-mar e as atirava suavemente de volta à água.

    O velho perguntou ao menino:

    - O que você esta fazendo?

    - O sol está subindo e a maré baixando. Se eu não devolver estas estrelas ao mar elas irão morrer, respondeu o garoto.

    - Mas, meu jovem - disse o homem - há quilômetros de praias cobertas de estrelas-do-mar. Você não vai conseguir fazer nenhuma diferença atirando uma ou outra ao mar!

    O menino curvou-se, pegou mais uma estrela e atirando-a de volta ao mar, disse:

    - Para essas aqui estou fazendo diferença."

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  5. A DIABÓLICA POLÍTICA DO PODER!!

    Lula foi por muitos anos uma referência ética na política do nosso país, foi um dos fundadores do PT, com os seus discursos inflamados empolgou uma geração, animou os intelectuais, deu uma identidade a juventude, devolveu a esperança aos menos favorecidos, fez durante vinte anos uma oposição séria, responsável, onde denunciou roubalheiras, falcatruas. Lula era a reserva moral da política nacional. Quando ele chega ao poder tudo aquilo que ele defendeu, lutou e ensinou começa a ficar de lado, agora a tão sonhada presidência, tão duramente buscada, ele havia conquistado. Todos imaginaram que a mudança tão sonhada tinha chegado, ledo engano, tudo, infelizmente seria como antes, Lula e o PT se perdem no poder, mensalão, aparelhamento do estado com mais de cem mil contratados para cargos de confiança, fraude na administração do partido, falcatruas nos fundos de pensão, alianças políticas inimagináveis ( Quem poderia imaginar Lula junto de Collor, Sarney e Renan Calheiros). Talvez você possa perguntar: Pastor, qual a razão de tudo isso? A razão de tudo isso é a diabólica política do poder, é a vontade de se perpetuar no governo, é a loucura de se achar o único, o insubstituível.


    Palavras do Pastor...

    Quem sabe ele tem mais crédito do que Eu.

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  6. O Partido dos Trabalhadores (PT) passa por um dilema curioso. Enquanto o presidente da República conta com uma taxa de aprovação de 67% — segundo o Datafolha –, o partido parece estar sem rumo. Na última semana, perdeu dois senadores — Marina Silva e Flávio Arns. O PT, com Lula na presidência, parece se arrastar de crise em crise, perdendo militantes e colocando em xeque o emblema de “partido da ética”.

    A alta aprovação de Lula e a situação atual do PT não são coincidências, de acordo com o professor Paulo Roberto Leal, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e autor dos livros O PT e o dilema da representação política e Os debates petistas no final dos anos 90. Na opinião do professor, um fato é consequência do outro. “Numerosos foram os episódios em que, em nome de preservar Lula e seu governo, foi o partido que pagou altas faturas políticas.”

    A polêmica da reforma da previdência — que causou a saída da ala mais radical do PT –, a crise do mensalão e a atual crise do Senado seriam todas situações em que, para preservar o próprio governo, Lula sacrificou o partido. Para o cientista político Paulo Baía, a atual crise do Senado, com Lula ordenando apoio do partido a José Sarney, é prova de que o PT está “refém” do presidente.

    Enquanto o lulismo existe sem o petismo, o contrário não parece possível, de acordo com Paulo Roberto. “Na verdade, nunca houve no partido uma figura capaz de rivalizar com Lula.” O professor aponta como sintoma do problema do partido a candidatura repetida de Lula à presidência desde a redemocratização. A vontade do PT de ter Lula na presidência teria, portanto, tirado credibilidade do partido, que se aliou a adversários históricos nas eleições de 2002 e novamente em 2006. “O lulismo é superior e mais amplo que o petismo. Hoje não dá para casar Lula e PT como no passado”, afirma Paulo Baía.

    Fonte: Opinião e Noticia - 26/08/2009

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