A internet e a ilusão do poder

Diário do Vale   Aurélio Paiva   ‘Os idiotas perderam a modéstia' A frase acima é do Jobim. Não do nosso falecido Tom, que nos ...

Diário do Vale
 
Aurélio Paiva
 
‘Os idiotas perderam a modéstia'

A frase acima é do Jobim. Não do nosso falecido Tom, que nos deixou suas belas composições. Mas do Nelson, ex-ministro do STF, de quem não se conhece grandes composições musicais, mas compôs esta frase que parece ter muito a ver com o tempo que vivemos. Uma era em que, decididamente, em todas as áreas, os idiotas perderam a modéstia.
A internet ajudou bastante os idiotas a perderem a modéstia. Criada inicialmente para troca de ideias científicas e acadêmicas, a web ganhou o mundo. De uma hora para outra o direito de qualquer um expor suas opiniões sobre todo e qualquer assunto se efetivou. E isto foi muito bom.
Em seguida à web vieram as redes sociais. O Orkut se popularizou principalmente no Brasil, mas foi o Facebook quem conquistou corações e mentes em quase todo o planeta. As pessoas não mais apenas escreviam um blog ou postavam comentários em sites, mas podiam compartilhar com centenas ou milhares sua vida, suas fotos, suas preferências e, claro, postar opiniões sobre qualquer assunto.
Isto também foi muito bom.
Claro que há o lado ruim disso tudo. Primeiro foi o surgimento dos trolls - aquelas pessoas que, principalmente no anonimato (embora nem sempre), se especializaram em expor na rede seu rancor ou simplesmente atacar a todo e qualquer texto ou personagem de notícia que encontre pela frente.
Outro problema foi o surgimento do chamado "efeito eco", especialmente quando se trata de política ou ideologia. Você entra no Facebook e vê que, em determinadas postagens, são as mesmas pessoas que comentam os mesmos assuntos e todos com as mesmas opiniões. Chovendo no molhado, tentam pescar novos peixes no mesmo aquário. Falam e ouvem a mesma coisa. O grupo ecoa, entre si, as mesmas opiniões.
Talvez o maior problema do "efeito eco" é que as pessoas não descobrem perspectivas diferentes. Os viciados em ouvir a própria voz, com diferentes tonalidades, estagnam na evolução intelectual e cultural.
Este processo compartilhado cria a ilusão do poder. O Facebook tem mais de 1 bilhão de usuários em mais de 200 países e, se formasse um país independente, só perderia para a China e a Índia em população. Mas, incrivelmente, há pessoas que acham que tudo o que postam no Facebook vira fato consumado. Imaginam que qualquer ideia postada, por mais idiota que seja, tem aprovação geral. Também acreditam que são mais lidos do que são e, a partir daí, se arvoram a um poder que não possuem.
Pessoas normais abrem uma conta no Facebook e têm plena noção das limitações. A ilusão do poder se abate sobre pessoas que alimentam em si dois distúrbios de personalidade: uma ilusão paranoica e uma mania de grandeza que leva a uma busca patológica por poder.
O ruim de tudo isso, em relação à internet, é que ela permite que pessoas com este tipo de desvio de personalidade se unam e passem a considerar normal o que fazem (evidência do efeito eco). Pior quando trolls usam tal processo para se alimentar de inveja e remoer seu rancor. Trolls e não trolls passam a viver em um universo paralelo idiotizado em que suas ilusões de poder tornam-se, para eles, realidade.
Mas a internet sempre tem como contraponto inúmeros lados bons. No caso em tela, o lado bom é que, com a rede, ficou muito mais fácil identificar os idiotas do que antes dela. Afinal, eles perderam a modéstia.

Aurélio Paiva é jornalista.

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  1. Significado de Modéstia
    s.f. Qualidade de modesto; desambição; humildade; pobreza
    http://www.dicio.com.br/modestia/

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